O Ladrão de Destinos

‎”Embora aparentemente adormecidos e inconscientes do mundo ao nosso redor, nossa ‘essência imaterial’ viaja para outros lugares, no mundo real ou alhures, onde Fadas finalmente se revelam””
(Lewis Carroll)

Capítulo um

UM CONSELHO ESTRANHO

POR MUITO TEMPO Mayumi tentou explicar às freiras porque andava e falava enquanto dormia, e, embora fosse da natureza da menina jamais faltar com a verdade, parecia simplesmente impossível definir os estranhos acontecimentos que envolviam aquelas rondas.

A menina não sabia. Mas o que a levava a agir deste modo acontecia desde que era apenas uma garotinha; ora descendo as escadas do sobradinho, ora andando pelo quarto dos pais, conversando com eles como se estivesse acordada.

No colégio as coisas só fizeram piorar.

Mayumi arrancava rolos de papel higiênico dos banheiros, e enrolava os tapetes da sala da diretoria.

Matilde Stern, uma grandalhona do sexto ano, costumava ter uma opinião muito peculiar a respeito.

– Se esta sonâmbula não for tratada longe daqui, vai causar sérios danos à segurança pública!

Apesar de tudo, Mayumi dizia que as rondas aconteciam porque as aulas, chatas e pouco interessantes, causavam sono, o que, de um modo geral, não era uma mentira. Mas isso, você deve imaginar, jamais convenceria as meninas “normais” de sua inocência (especialmente para aquelas que desaprovavam completamente que a menina perambulasse pelo telhado do colégio).

Quando nossa história começa, por exemplo, Mayumi acabava de despertar no altar da capela. Vê-la ali como uma morta viva, fez a faxineira Lurdes pular a dois palmos do chão. Mayumi também se assustou, mas não teve tempo de correr, porque, instantes depois, apareceu a Irmã Dorília, que a levou direto para a sala da Madre Superiora. Ela, que já estava bem acostumada a receber o sermão de sempre, ficou detida na salinha até escutar o último sinal. Ela sabia, no entanto, que Matilde e suas amigas estariam à sua espera na saída, prontas para lhe dar uma boa surra, e, quando pôs os pés no saguão do colégio, teve a derradeira certeza: catorze meninas (algumas delas sem motivações maiores do que apenas puxar cabelos), estavam ali, preparadas, para a perseguição.

Ao deixar o portão do colégio, lamentando não poder esconder-se no banheiro, (como da vez em que ficou trancada ali até às três da tarde), Mayumi correu para a rua dos Estudantes. Entre descer a rua para casa e subir em direção à lojinha de antiguidades de Lao Pengyou, decidiu-se pelo segundo destino, para onde, sabia, Matilde e as meninas jamais fariam arruaça.

A lojinha ficava à uma quadra do colégio, no Beco dos Aflitos, uma portinha estreita, vermelha, com caracteres chineses. Apesar de ser uma loja de antiguidades como sugeria a fachada, vendia-se tudo: de papéis de dobradura (que a Sra. Chen adorava), até porcelana falsificada da Dinastia Ming.

Ao vê-la, o velho chinês levantou-se, dirigiu-se às meninas que a perseguiam, e as espantou como se fossem pombos impertinentes.

– Mayumi! – ele exclamou em seguida, assim que fechou a porta atrás de si. – Pensei que seus pais haviam conversado com a diretora sobre estas predadoras!

Ela limpou o suor do rosto, estreitou os olhos que afinaram como delicadas pinceladas de sumi, e mirou-se num grande espelho que pontuava os locais do Feng Shui. Ali, cheiro de incenso, madeira velha, cola e tecido traduziram segurança aos sentidos da menina. À frente de um balcão abarrotado de dragões de ferro fundido, caminhava a figura robusta, triangular e barbuda de Lao Pengyou. Era sempre assim que o encontrava, mas daquela vez, havia um porta-retratos novo sobre o balcão ao lado de uma estatueta de um tigre. Lao parecia estar polindo o metal da moldura, quando ela apareceu.

– Pareço verde – observou a menina. E, então, talvez, como se não quisesse tocar no assunto da perseguição, murmurou: – Será fome?

O velho estreitou ainda mais os olhinhos negros, e não respondeu aquela pergunta como esperava a menina, mas em vez disso fez outra:

-Xiau nuhai, seus pais não compareceram à reunião mais uma vez?

A menina suspendeu a respiração. Ficou na dúvida se deveria responder aquela pergunta. O velho Pengyou tinha um jeito muito especial de chamá-la de “pequena menina”, mas apenas quando queria começar algum discurso. E ela temia que sua pequena e necessária omissão da verdade viesse à tona. Afinal, há algumas semanas, havia contado ao velho que os pais estavam atolados de trabalho, e que, portanto, sequer tinham tempo de ler os bilhetes da escola.

– Ahn… Acho que eles já conversaram com a madre superiora – mentiu ela, embora não lhe agradasse nem um pouco faltar com a verdade.

– Hum. Então, tenho certeza de que vão tomar uma providência – concluiu o velho, para depois, então, murmurar: – Quer uns guiozás1?

Mayumi anuiu. Retirou a mochila das costas e depositou-a numa cadeira que ficava ao lado da janela pintada. Avaliou a camisa branca encardida, com o bolso bordado “Chen”, e a saia, caindo acima dos joelhos, plissada como forminha de brigadeiro de cabeça para baixo.

– Estes guiozás parecem ótimos – observou ela diante do silêncio que se instalou na lojinha.

O velho Pengyou cruzou o estabelecimento até a portinha vermelha, e pendurou a plaquinha bilíngue “volto depois do almoço” na maçaneta pelo lado de fora. Depois voltou-se para Mayumi, oferecendo-lhe um lugar no balcão onde pudessem fazer a refeição.

– Então, aconteceu novamente – murmurejou ele.

Mayumi suspirou desconsolada. Pengyou a conhecia mais do que ninguém. Sabia mais até do que a sua própria família. Também não culpava os pais por isso. A Sra. Chen esperava um novo menino, e só existiam olhos para ele: roupinhas novas, quarto reformado, e até um lindo nome (uma escolha entre o chinês e o japonês, já que Mayumi advinha, em porções iguais, destas duas nações do extremo oriente).

– É. Aconteceu – respondeu ela. – Desta vez, acordei na capela.

O velho deixou escapar um murmúrio grave, e voltou a mastigar o guiozá.

Pelo menos, Lao não a repreenderia como faria a Sra. Chen. Ela era muito austera e rigorosa; filha de imigrantes japoneses, cuja ética e bom senso vinham acima de qualquer coisa. Diferente dela, o Sr. Chen era alegre e descontraído, filho de imigrantes chineses. Todos sabiam a grande conquista que foi, para ambas as famílias, realizar o casamento, uma vez que, tanto de um lado, quanto do outro, desaprovavam o enlace (Lao Pengyou costumava dizer que o destino era capaz de superar até rusgas entre países inimigos).

Mayumi lamentava que os pais não enfrentassem o problema da menina com a mesma determinação com a qual enfrentaram os pais. Mas não pensem que eles não se preocupassem com ela, porque isso não era verdade, mas, para eles, como também para a maioria das pessoas comuns, sonambulismo não passava de um mal passageiro que pudesse ser curado facilmente como gripe.

Gripe?

Ora, estamos falando de sonambulismo!

Uma palavra que Mayumi odiava.

Se você sabe, ou conhece alguém que sofre deste problema, entende o quanto é terrível perambular inconsciente por aí, e, ainda por cima, entregar o próprio destino a quem quer seja.

Para Mayumi, significava ter a liberdade roubada.

Ironia ou não, a menina morava num bairro chamado Liberdade.

Neste ponto, as aulas de História não eram chatas, e cumpriam com o papel: o professor, que pouco se importava de ter uma aluna sonâmbula em classe, contava que, antes de ser um bairro oriental, a Liberdade servira de palco para mortes na forca, e que, não à toa, recebera este nome depois de que um de seus condenados resolvesse, após ter a corda partida por duas vezes, clamar pela própria liberdade (embora o pedido não houvesse sido atendido, evidentemente).

Seja como for, e porque as aulas de geografia, sim, eram chatas, insistindo em falar apenas de relevos, planícies e bacias hidrográficas, Mayumi sabia que o bairro era, no aspecto geográfico, grande o suficiente para abarcar o externato, a sua casinha, e as centenas de lojinhas comerciais japonesas e chinesas.

– Então, acho que deve saber controlar suas crises – murmurou subitamente Pengyou, despertando a menina de seu devaneio. – É uma menina de espírito livre, e isso não significa que precise ser selvagem.

Os guiozás pareciam deliciosos. Mayumi colocou o maior deles inteiro na boca, o que a impossibilitou de se pronunciar por meio minuto, embora estivesse inclinada a perguntar coisas sobre os sonhos que ocorriam durante estas andanças. Perguntou, enfim, quando engoliu o segundo bolinho, encontrando aí um meio de desviar Pengyou de seu sermão.

– Sonhos – sussurrou o velho. Ele, como todo bom chinês (e Mayumi conhecia bem o próprio pai), acreditava existir algo de fantástico e proveitoso nos sonhos, pois, segundo dizia, habitava neles o “verdadeiro eu”. Alguns chineses podiam até receber mensagens de ancestrais. Mas o que despertou verdadeiro interesse em Mayumi, foi escutar que muitos destes dorminhocos eram capazes de vislumbrar pessoas que viriam a encontrar realmente quando acordadas, de modo que tais experiências, como aquelas de ter a sensação de já se conhecer certas pessoas sem jamais ter travado contato algum com elas, eram bem reais.

– Assim como eu e você, xiau nuhai – murmurou ele. – Ou você acha que nosso encontro foi por acaso?

A menina sorriu. Era verdade. A primeira vez em que entrou na lojinha, foi pelo mesmo motivo que a fizera esconder-se ali naquele dia. Mayumi conhecia Pengyou apenas porque a mãe pedia para que ela comprasse os papéis de origami, mas ela sabia que o conhecia de há muito tempo.

– Ainda assim não lembro de qual sonho nos encontramos – revelou ela. – Sonhos quase sempre não tão obscuros…

– É natural – concordou o velho.

– Mas tem uma coisa que venho sonhando nos últimos tempos – ela afirmou, pensativamente, – que não esqueço jamais. E pode muito bem justificar minhas andanças pelo colégio…

Lao Pengyou voltou-se para ela com o rosto enrugado e impassível.

– O que seria?

– Um fusca vermelho – revelou ela.

Lao enrugou a testa.

– Um fusca?

– Sim. Vermelho. Desgovernado, é o que penso. Correndo a toda por uma avenida, e o motorista, ao que parece, gritando por socorro – completou a menina.

Lao escutava tudo com muito atenção, é claro (porque era um velho muito indulgente), mas conduzia os pensamentos em silêncio.

Depois de algum tempo, murmurou, sem mostrar-se surpreso:

– Talvez seu espírito esteja voejando por lugares reais.

– Então, acha que meu espírito faz isso porque é atraído por este tipo de coisa? – indagou ela.

– Talvez – murmurou o velho chinês, ajustando os rashis nos dedos. – Pode ser que goste de perigos.

Mayumi fitava as prateleiras sobre as quais depositavam-se cabeças de macacos, porcos e galos.

– Não é à toa que ando por aí derrubando tudo – respondeu ela.

O velho ainda mastigava seu guiozá, e olhava para o calendário chinês preso à parede de frente ao balcão: 1985, Ano do Boi, dizia ali. E, então, depois de bom tempo mastigando, virou-se para a menina.

– Já experimentou domar o próprio corpo?

A menina engasgou.

O velho sorriu diante daquela reação.

– Sim. Domar. Da próxima vez, quando sair de si, procure dizer “não” ao corpo. Talvez assim ele desista de lhe seguir. – E ao dizer isso, criou círculos imaginários com os dedos, indicando o curto espaço da lojinha. – Tenho certeza de que ele a está seguindo com medo de perdê-la por aí.

Aquele conselho soou tão esquisito e curioso, que mais nada foi falado durante toda a refeição. E, embora houvesse mais a ser dito, o velho calou-se por todo o resto daquela estranha entrevista.

A lojinha já ganhava sombras por todos os cantos com o aproximar da tarde. Mayumi sabia que a mãe estava em casa preparando o almoço, e depois sairia para levar encomendas de origamis para as vitrines das lojas da Liberdade. A Sra. Chen trabalhava neste ofício desde muito jovem, e era muito disciplinada. Acreditava que com o dinheiro ganho com as dobraduras de papel poderia dar uma vida melhor ao novo Chen, já que o trabalho do Sr. Chen na fábrica de celulose não parecia contribuir o suficiente. Sabendo muito bem disso, Mayumi pouco se importou quando o velho Pengyou encerrou aquela reunião dizendo:

– Talvez tenha de descansar. Em vista do que pode lhe esperar lá fora, faço questão de levá-la para casa.

Mayumi não gostou nada disso. E se Matilde ainda estivesse espreitando no quarteirão? Decerto diria que a menina estava usando o velho como guarda-costas, e isso só faria piorar as coisas.

Como gostaria de que nada daquilo estivesse acontecendo!

Mas estava.

O céu de outono, azul, sem nuvens, soprava uma brisa fria que farfalhava as aroeiras pelo caminho. O trajeto entre a PENGYOU ANTIGUIDADES e a casa de Mayumi era um percurso curto, de no máximo um quarto de hora, mas o tempo discorrido daquele ponto a outro parecia ser longo e incerto. Mesmo com os passos curtos e ligeiros do velho, a menina não deixava de esquadrinhar os becos e as vielas, e até mesmo os postes de luminárias japonesas, em busca de Matilde.

Talvez porque achasse que aquele momento parecesse ideal para voltarem ao assunto dos sonhos, Mayumi ciciou:

– Quando saberei que estou pronta para domar o meu próprio corpo?

– É uma resposta que você mesma terá de responder – murmurejou o velho.

– Hum. Talvez meu corpo jamais desista de me seguir, pensando melhor – lamentou ela.

O velho sorriu.

– Isso é o que você pensa, xiau nuhai.

E, então, os dois desceram mais uma quadra da rua dos Estudantes, até à rua da casa da menina.

Enquanto faziam o percurso em silêncio, Mayumi pensava em como poderia domar a si mesma. Não lhe parecia comum dar ordens a um corpo adormecido, e tampouco em quais condições deveria praticar. Quando enfim chegaram à casa de Mayumi, bem no final da R. Anita, a rés da escadaria que levava à íngreme R. do Conde, o velho, muito satisfeito, regozijou-se de chegar ali sem resfolegar.

Mayumi já pegava a chave de casa na mochila, quando Lao Pengyou fez menção de tocar a campainha.

O sobrado, espremido entre duas outras casas, com a porta da rua que se abria para uma calçada estreita, parecia tão apertado quanto seria um livro numa estante abarrotada. Curioso, Pengyou inclinou a cabeça para o lado, com os olhos ainda mais espremidos, e não notou quando a porta se abriu. Ao perceber que a mãe de Mayumi já estava ali (espantada por vê-lo acompanhado de Mayumi), empertigou-se imediatamente.

– Trouxe a sua filha, Sra. Chen – explicou ele, ao que parecia óbvio.

E fez uma reverência.

A Sra. Chen alisou a barriga protuberante, relanceou para a filha e depois para o velho, e enrugou a testa. Era reservada como todos os imigrantes japoneses.

– O que houve? – Indagou ela.

– Como deve saber, a pequena Chen passa algumas horinhas em minha loja antes de voltar para casa, porque diz que a senhora não está – respondeu o velho, hesitante.

Mayumi lamentava não ter encontrado desculpa melhor.

– Obrigada – replicou a mulher. – Deseja entrar?

– Oh, não, não! Estou aqui apenas para garantir a chegada de Mayumi. Agora se a senhora me permite…

Antes que a Sra. Chen lhe dissesse coisa alguma, Mayumi viu quando os lábios de Pengyou pronunciaram, quase como o sopro daquela brisa de outono:

“Você já está preparada.”

Mayumi abaixou a cabeça e entrou sem se despedir.

O que mais precisava, naquele momento, era, sim, estar preparada para domar a Sra. Chen.

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