O Homem que morria demais

Prólogo

Grande parte do que fui um dia estava ali, inerte, caído diante de uma árvore cujos galhos retorcidos subiam para um céu nublado. Uma luz difusa, cálida e vacilante, abraçava meu corpo, ainda padecendo dos espasmos que precedem o Rigor Mortis. Pouco via daquele que era o meu corpo caído: a luz tentava me ocultar (ou me proteger, não sabia ao certo).

De súbito, fui dominado pela derradeira pergunta: seria aquela a despedida, sem volta, de meu antigo invólucro? O fato era que não sentia nada, e tampouco respirava. Observava de longe a criatura brilhante e sua tentativa de me absorver por inteiro.

Quando isso aconteceu, uma paz repentina se apossou de mim, e girei no ar, relanceando ao redor como se tudo o que antes havia sido uma floresta de pinheiros se transfigurasse nos contornos ondulados de um mar revolto.

Já não sentia meus pés, e começava a gostar daquela sensação. Uma experiência que pouco durou é verdade: ao cabo de um instante fui acometido pela abrupta mudança de clima: o céu pálido tingiu-se de verde e uma neblina densa deitou-se sobre mim. Já não existia em meu espírito um coração que pudesse sobressaltar, mas o medo e as emoções humanas ainda estavam bem fortes em mim.

Senti que, na dimensão dos mortos, tudo era verde e sombrio.

Capitulo um
O MENINO DO ESPECTRO CADAVÉRICO

Acordei mais uma vez deitado numa mesa.

Ainda que me parecesse comum, sobressaltei. Vesti-me, abri a porta, e semicerrei os olhos.

Luzes!

Havia esquecido do pior dos sentidos.

Cheiro de álcool, lixo hospitalar e morfina tresandaram, fazendo de mim aquele que redescobre o olfato também.

Algor estava logo à frente, conversando com um enfermeiro, que tentava através de gestos afoitos afastá-lo dali.

– Estou bem – foi o que ouvi de minha própria voz ressonando pelo corredor.
O enfermeiro fitou-me, ficou pálido, e saiu correndo. De repente me dei conta de que estava num hospital. Livre do rapaz, Algor apertou o passo em minha direção.

– Você é mesmo um homem maluco – murmurou ele, num misto de desconforto e alívio. O rosto quadrado, e os vincos na testa o faziam parecer um buldog, – acha mesmo que estarei por perto sempre que isto acontecer?

Branco daquele jeito, e tão familiar aos meus olhos, Algor confundia-se com o cenário que já não me era uma novidade, embora, soubesse, estivesse acostumado a acordar em praças públicas, banheiros e cemitérios.

Tudo bem. Confesso que daquela vez havia demorado, mas antes ali, pensei, que dentro de uma câmara refrigerada.

Tossi, tentando escarrar algo que devia estar preso na garganta há dias.

– É para isso que lhe pago – disse, roucamente, – mas sei que está aqui porque se importa comigo, ahn? Dom Quixote e Sancho Pança?

O coveiro bufou. Saímos pela portaria do hospital Santa Florence, enquanto seguranças corriam até a portaria.

Um carro de praça nos aguardava, enquanto descíamos a escadaria de pedra, e relanceávamos temerosos por todos os lados. Os prédios em art decó, acinzentados e simétricos, corriam a perder de vista, e a rua com seus transeuntes afoitos, empesteava-se de criaturas translucidas serpenteando entre eles. Isso acontecia comigo toda a vez que morria. Era como se meus olhos ainda trouxessem reflexos da dimensão em que viviam criaturas não humanas. Afinal, acontecia com quem voltava da morte como eu. Sim. Morrer como acontece como quem tem catalepsia. No meu caso, um grau de catalepsia tamanha que não possuía precedentes na medicina, a ponto de enganar até os doutores mais astutos.

Seja lá como for, confesso (a contragosto) que é mesmo impressionante saber da existência de um mundo invisível. Meus pais me levavam para o zoológico e lá via girafas sem pescoço, elefantes brilhantes, e macacos que atravessavam a água borrifada dos umidificadores sem se molhar. Sentia como estar numa sala de cinema a céu aberto com um projetor lançando imagens sombrias sobre telas de vidro esparramadas por todos os lados.

Meu pai berrava:

– Toti, oh, Toti! Olha para onde anda, moleque burro.

Meu pai, o respeitado juiz Geboreno, não compreendia quão desastroso era para mim ter com estes fantasmas vagando como vespas. Mas também era natural que ficasse transtornado com um garotinho que andava sem olhar para frente.

Não tive escolha, era o preço de morrer todos os dias.

Entramos no táxi, e afundei no banco de trás enquanto Algor ditava as coordenadas de nosso destino ao taxista, que vinha acompanhado de uma criatura fantasmagórica e disforme do tamanho de um gorila no banco do passageiro.

Já começava a me resignar de ver aquilo, quando ouvi Algor dizer naquela voz taciturna:
– Rua do Padeiro, 325, por favor.

O hospital, a rua, e todos os transeuntes se transformaram subitamente em um borrão colorido diante de mim. Por que raios tinha de ser assim? Pagaria o desconforto de descobrir que criaturas translúcidas nos observam até no banheiro, causando situações desconfortáveis?

Está certo. Ver espectros tinha lá uma mixa vantagem. Parte porque sua forma e composição podia nos manter longe de malfeitores, assassinos e trambiqueiros.
Sei disso porque, além destas criaturas que vagam aleatoriamente pelo espaço-tempo, há também aqueles que são os nossos reflexos. Talvez a nossa existência duplicada do lado de lá. Andam acorrentados ao nosso corpo físico e mostram um pouco do que você é de verdade.

Veja bem, não estou aqui para dar uma lição sobre como as coisas funcionam no mundo espiritual, ou seja lá o nome que deem a isso, mas confesso que sei um pouco mais que estes charlatões que acreditam se comunicar com os mortos. Ao meu ver, tais criaturas que flutuam ao nosso lado, como um balão de gás, ora parecidos com pequenos embriões, ora com seres humanos formados, apontam o que realmente somos. Novos ou velhos.

Bons ou maus.

O banqueiro Amilcar Tonon já dissera algo a respeito. Dizia que os vemos assim, porque é como nossos olhos mortais o veem. “Do lado de lá, a coisa é bem diferente” ele murmurava, enquanto bebericava seu cafezinho na boulangerie da Rua Santa. Acredito nele, porque o pobre homem já entrou em coma e sabe o que diz.

Felizmente, o espaço finito entre nascer e morrer, é apenas um segundo no cosmos espiritual, de modo que uma pessoa, mesmo vivendo uma centena de vidas humanas, pode ter mais que um mísero feto acorrentado ao seu corpo físico.

Saber destas coisa me transformou num homem tenso e apático, incapaz de me relacionar com qualquer pessoa. Talvez a única pessoa neste mundo que pudesse me entender fosse o coveiro Algor. Ele estava sempre ao meu lado (quando não estava enterrando alguém) e simplesmente tinha opinião sábia sobre o fenômeno.

Como o conheci? Talvez seja melhor que eu conte mais tarde.

A questão é que só podia contar com Algor para me desenterrar, mas não para me ver livre de espectros “acompanhantes” e “integrados”, e isso não me deixava alternativa senão apodrecer em meu pequeno escritório na Cidade.

Para onde aquele táxi nos levava, diga-se de passagem.

O escritório de advocacia de meu pai ficava a duas quadras do fórum, era um sobrado espremido por dois edifícios de tijolos aparentes, um trabalho de alvenaria antiga e mofada. Uma escada muito estreita levava à porta da rua, cujo hall se abria em “L” como um corredor encrencado. Ali, havia uma porta de madeira simples que dividia minha sala com um espelho pendurado nela, e já havia meu nome pintado em letras garrafais na madeira. Quando o taxista nos deixou, saiu cantando pneus, tamanha desconforto em me ver com cara de defunto.

Agora sentia o peso da morte, enquanto Algor me auxiliava a subir a escadinha até a porta. Laura, nossa secretária, abriu a porta e disfarçou muito bem a visão que teve, como quem descobre algo secreto e finge não saber de nada. Passei diante do espelho e me espantei. O homem antes elegante e bonito, parecia atropelado por uma Scania Vabis. O nariz fino estava sujo de graxa, e os olhos castanhos tinham sangue pisado nas órbitas. Tentei sorrir, mas os lábios estavam um pouco arroxeados, e isso deixou meus dentes ainda mais amarelos.

A boa Laura nos anunciou que tínhamos um cliente à espera.

– Diga que não posso – murmurei apático.

– Parece ser importante – respondeu ela, olhando subitamente para os próprios sapatos rasteiros e puídos. – Já está na sua sala.

Fitei Algor com suplício e ele ergueu uma das sobrancelhas.

De súbito, o espelho foi jogado com força para o lado com as dobradiças da porta e saiu de nossa sala, um menino de mais ou menos quatorze anos, de rosto ligeiramente suado, vestindo uma jaqueta puída por cima de um moleton que se lia Michigan, descalço como os meninos que viviam de engraxar sapatos na estação.

O que me causou espanto, foi ver, naquele relance que o trouxe escritório adentro, dois grandes espectros que o acompanhavam, e, bem próximo a ele, uma figura cadavérica de alguns milhares de anos.

– Ainda bem que chegou… Sr. Aristóteles Geboreno? – Indagou ele, completamente sem fôlego, fitando-me como que duvidando de mim. Advogados não vestem jalecos, pensei.

– Sim. Lembrar que este nome horrível está gravado na porta, é pra mim uma tortura – respondi, ainda sob o efeito daquela arrebatadora visão. – Se for indicação do velho Quincas, melhor que procure a prefeitura.

O menino se curvou para puxar o ar, e então, estendeu a mão. Recusei em apertá-la.

– Preciso de sua ajuda – ele balbuciou. – Sei que vê imagens do mundo dos mortos -e, ao dizer isso, respirou fundo antes de continuar. – Eu também vejo coisas assim…

Fitei Algor de soslaio, e percebi que algo muito sério estaria para acontecer. Entrei na sala e sentei-me, levantei-me de volta, para em seguida voltar a me sentar, deixando alguns papéis que segurava.

– P-pode repetir? – Indaguei perplexo.

– De que parte?

– Tudo.

– Preciso da sua ajuda – recomeçou o menino, visivelmente aborrecido, – sei que vê imagens do mundo dos… Ei, será que não posso explicar lá fora?

De todos os medos que sentia o pior era “sair lá fora”. Não gostava de ver o zoológico de aberrações espectrais me observando. Quando o espectro cadavérico que o menino carregava se deu conta da minha presença, espremendo as órbitas vazias, o ar me faltou. Esta sensação? É como esquecer a carteira abarrotada de dinheiro numa mesa de bar.

– Não posso – disse automaticamente.

O menino suspirou.

– Olha só. Uma mulher acabou de se acidentar, e tem um porção de coisas sinistras provocando algumas merdas a duas quadras daqui. Tenho certeza de que o senhor não vai ter um motivo como este, pelo menos por um bom tempo – e vendo que eu não dizia absolutamente nada, continuou: – já que seu escritório está as moscas.

Algor tinha uma opinião muito sensata a respeito.

– Acho melhor o doutor ir – opinou ele, enquanto ajeitava o colarinho apertado, – pretendo descansar no dia de finados.

Detestei saber que dependia daquele coveiro maldito. Mas ainda assim relutei. O espelho pendurado na porta mostrava ainda o belo rapaz atropelado, desta vez muito mal humorado.

Para quem havia renascido de novo, o que queria mesmo era voltar para o ventre materno.


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5 pensamentos sobre “O Homem que morria demais

  1. UAU!
    Deixe-me buscar palavras para descrever o que acabo de sentir, ou melhor, esqueça; Nenhuma delas será boa o suficiente para descrever o indescritível.
    Sei que você já escutou isso uma porção de vezes, mas é sempre bom salientar: Você escreve divinamente bem. Um dos melhores, senão o melhor, nessa “nova” remessa de escritores brasileiros.
    Logo de início fui atraído pelo título da estória – que por sinal, preciso terminar de ler o mais rápido possível. Depois vieram as palavras imensamente convidativas e aconchegantes que me fizeram perder a noção do tempo durante estes poucos minutos que levei para terminar o prólogo. Estou ainda fascinado com tamanha familiaridade que senti ao ler. Me senti em um dos contos do digníssimo Edgar Allan Poe – olha a honra.

    Agora, preciso de informações sobre o mesmo.
    Será publicado? Já tem data de lançamento? Sabia que acabou de ganhar um admirador?

    Com isso me despeço, com a promessa de voltar.
    E como há braços, abraços.

    • Caleb!

      Bom dia!

      Muito obrigado pelo carinho! Este texto é ainda um ensaio do que pretendo escrever, e isso me deixa muito mais motivado a continuar. Mas a história ainda não tem editora.Estou esperando o desenrolar dos acontecimentos. Assim que tiver uma boa notícia eu aviso!

      Espero que apareça sempre por aqui!

      Um forte abraço! (afinal, como há braços, abraços!!!)

      Nanuka Andrade

  2. Muito bom!

    Adorei o título. Ele certamente atrairá muitos leitores que não se decepcionarão com o conteúdo.

    Parabéns!
    Esse sai quando!?!?!
    Abraços

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