CONTO: O HOMENZINHO NO ESPELHO

Hoje, estava refletindo sobre minha curta vida. Vida de pedaço de vidro que adora ser visto pelos homens.

Começaram me pendurando numa parede esquecida, em cuja tinta descascada, morria-se à cada dia. Depois, na escuridão de um depósito. E depois, ainda, largado num soalho sujo, por onde corriam criaturas peludas, dentuças, ágeis como a peste! Pestes que os homens costumavam chamar de rato (aliás, chamam-se uns aos outros também, quando se ralham bravamente): um fato curioso e que muito me confunde nesse mundo dos nomes! E só então, depois, à custa de muito descaso, foram me pendurar num desses lugares incomuns, onde, salvo do escuro e do relento, pude encarar os mais diferentes tipos humanos.

Refletir, refletir e refletir! É o que faço desde que me fizeram assim. E, é sem dúvida, refletindo, que passo horas e horas, sozinho. E o que é pior, pendurado. Não digo que seja horrível, mas é triste saber que, à qualquer momento, podemos despencar daqui de cima!

Foi numa dessas reflexões, que conheci verdadeiramente as feições da alma daqueles que, diante de mim, buscavam sua imagem. E de como me pus encantado com a figura do Homem, que todos dizem desumano e cruel, mas que em mim despertou paixão. Especialmente a de uma figura pequena e franzina, que por muito tempo me fez companhia. Era um homenzinho de olhos amendoados, nariz pequeno e sorriso largo de dentes fortes.

Antes que o esquecimento me faça parte, devo dizer que, numa das conversas dos homens, descobri onde fui pendurado, e isso faz uma tremenda diferença, porque os cenários são sempre importantes para se entender a história. Era uma sala pequena, em que se cabe apenas um, dois no máximo, onde os homens preparam-se para enfrentar outros homens, depois de pintarem a cara, e ajeitarem os colarinhos. Não! Não é uma preparação para guerra! Em que todos se pintam e saem gritando feito loucos! Bom, a julgar os urros, e salvas que escuto quando se abre a porta, penso que seja como a guerra. Mas não é. Ali os homens preparam-se para alegrar seus irmãos. Vestem-se estranhamente e partem. E quando transpassam a porta, e isso posso ver, antes que ela seja fechada, percebo o quanto são desejados.

O mesmo ocorria com esse sujeito de olhos amendoados. Todas as vezes que entrava e saia, palmas e berros de satisfação o acompanhavam e isso de certa forma também me contagiava. Essa salinha dava logo num estreito corredor, que por sua vez caía num amontoado de cortinas, que entre as brechas era possível divisar certas tábuas de madeira, cujo estrado, a maioria desses homens pisam enquanto se exibem. Mas, era apenas isso que se podia ver, já que não sou vidro de aumento para enxergar à tamanha distância.

Descobri mais tarde se tratar de “palhaço” o título que davam àquele homenzinho. Sim, é o nome que dão aos que brincam de “fazer graça”. Entram no palco, como disse há pouco, e roubam gargalhadas de seus irmãos.

Mas havia naquele olhar, em cujos contornos à lápis realçavam ainda mais as expressões, algo de “diferente”. Diferença que o deixava ainda mais distante de mim. Sim, distante, porque aquele homenzinho olhava através de mim. E como olhava!

O que será que pensava? E como não sou dotado de inteligência; ora, porque sou apenas um espelho, apenas fiz das deduções o meu consolo. Mas em uma delas, conclui: “ele deve estar cansado de alegrar” ou “deve estar cansado de ser ‘palhaço’”. E se um dia alguém se cansa de “ser alguma coisa”, com certeza, o espelho é um. Ah, tenha a santa paciência! Aguentar as caretas e às vezes desabafos de pessoas mal educadas não é o melhor dos ofícios!

Mas as caretas do homenzinho me alegravam. Sim, me alegravam. Não sei explicar o quanto, mas me alegravam.

E um dia me privei desse prazer.

Sim, porque mesmo sendo de “espetáculo”, ele não apareceu.

Nem outro veio em seu lugar. Decerto estivera doente, assim como os espelhos quando se embaçam. Mas o fato é que durante dias, não o vi. Haveria morrido, como os espelhos despencam um dia? Não. Isso não, porque todas as suas vestes ainda estavam ali, e eu ainda podia refleti-los, mesmo que de esguelha.

Deste incidente em diante, entristeci. Fiquei apático; e não sei porque sentia realmente a falta daquela companhia, mas porque não refletia mais o semblante curioso daquele homenzinho. Queria poder ter pernas para andar e sair em busca de notícias, mas se a energia concentrada em mim me impelisse a isso, poderia, aí sim, despencar para a morte. E a morte para o espelho é o tilintar dos mil cacos. Sempre me disseram isso. Vivam os cacos!

E o tempo passou. Dias, noites, claridade, escuridão. E nada do homenzinho.

Já estava me conformando com a solidão, quando, após vinte noites, o vi entrar novamente na salinha. Empanturrei-me todo. Aprumei meu vidro como se fosse novo! Ah! Ele estava finalmente de volta! Sim, ele, o palhaço homenzinho que fazia graça! E fazia a minha também! Sim! Maravilha! Era ele mesmo! Os mesmos olhos amendoados.

Mas os olhos estavam diferentes.

Calei-me – como se isso fosse possível! – e venerei o seu silêncio. Estaria ali para despedir-se de mim? Não. Não podia ser. Petrifiquei. De repente, a tristeza foi tamanha que espenquei.

O som do meu tombo o assustou a julgar o recuo instantâneo. A moldura fina me salvou. Sim, a mesma moldura que me deixava bonito, e não um espelho qualquer. Ainda assustado, tentei controlar meu foco, já que ele tentava me buscar, e ora via aquele rosto correr de um canto a outro em mim.

De súbito, escutei outro a entrar naquela salinha. O homenzinho me colocou carinhosamente à parede e voltou-se para o segundo que se punha a seu lado. Que horror! Não podia vê-los! Exceto dois pares de sapato que voltavam seus bicos em conferência. E então, o outro lhe disse:

– Veio pegar suas coisas?

– Sim… – disse o homenzinho. E eu tive um espasmo de emoção ao ouvi-lo pela primeira vez, após tanta intimidade decorrida de nossos encontros! – Sim. Queria levar o espelho, sabe? Bem, o espelho me ajudou muito…

Confesso que por instantes, quase chorei, mas sabia que não tinha olhos que me permitissem o sabor das lágrimas (muito embora refletisse muito bem o choro dos homens).

E então o outro sujeito lhe disse:

– Mas veja, Santo Deus, o espelho está um caco. A queda não lhe foi graciosa!

Senti ódio. Ia me debater com toda a minha energia, mas me contive. Não, não poderia estragar tudo assim, daquele jeito. Não, eu, que tinha todo o merecimento do homenzinho.

– Oh, não – retrucou ele em minha defesa. – Quero-o assim mesmo. Não sei quais espelhos me esperam na América!

E então o vi novamente. Ele me trouxera ao alcance de sua face. Sim uma face gloriosa, cheia de esperança e amor. Sim o mesmo rosto do homenzinho palhaço que agora também me fitava com alegria.

– Sei que vão se lembrar de você, aqui – disse-lhe ele. – O bêbado que tirou risada da burguesia inglesa!

– “Ele” me entende – disse-me o homenzinho, olhando-me profundamente.

– Espero que sim! Ora, terá muitos momentos a sós com ele! – riu-se o outro. – Agora, vamos, Chaplin. Ou vai querer que os americanos duvidem da pontualidade britânica?

E, sem dizer uma única palavra, o homenzinho me tomou por baixo do braço e levou-me para fora.

De minhas memórias, esta era a mais brilhante: o céu de Londres e a América que me aguardava.

Hoje é aniversário daquele que foi uma dos grandes gênios do cinema mundial. Charles Chaplin, ou simplesmente o vagabundo, nascia há 123 anos, em Londres. A vida? Bem, dispensa comentários. Confunde-se com a história da sétima arte.

Estou lendo “CHAPLIN – Uma biografia definitiva” escrita por David Robinson. Assim como o espelho, muito apaixonado por ele também.

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