Conto: A LANTERNA

SHIJO TERIA ESPERADO. Mas o vento, frio, farfalhando as folhas das copas, o impelia a continuar. Estaria atrapalhando o sono de antepassados, que faziam morada em Aokigahara?

Não gostaria de saber.

Ao fim daquele mar de árvores, podia ver, por uma nesga pálida de luz, o indício do prado e de sua aldeia. Pulsava entre os troncos esguios, como se as chamas de uma fogueira ardessem no final de um túnel. Apertou o passo e caminhou, mesmo acreditando que fosse possível ouvir as vozes que sibilavam na mata.

Saita, saita churippu no hana ga

Naranda, naranda aka, shiro kiro

Dono hana mite mo kireidana¹

A luz, que supunha emanar de sua aldeia, no entanto, advinha da lanterna de um chouchin², que, ali, parada, bruxuleava na escuridão na mão de uma menina.

Uma menina?

Diante daquele inesperado encontro, Shijo recuou.

– Tão longe da aldeia… – Murmurou ele, sem saber o que dizer.

Ela nada respondeu.

Assustado, o menino achou que estivesse desmaiada. Afastou as mangas de seu quimono e, inadvertidamente, puxou-a para si, de modo a apoiá-la em seu próprio corpo; mas o movimento brusco o fez topar com algo áspero e encarquilhado, ferindo levemente o antebraço e os dedos.

Para espanto do rapaz, um galho, sinuoso e encurvado, partiu-se naquela investida, escorregando a alça da lanterna pelo ramo.

Não havia ninguém.

Nani? – Indagou Shijo, assustado.

Diante do estupor daquela revelação, sobressaltou.

Era uma menina. Tinha certeza disso…

Uma crescente onda de temor comprimiu-lhe os sentidos. Ao cabo daquela constatação, retirou a lanterna do ramo, e procurou se afastar dali, enquanto avaliava o peso do constrangimento.

– Sou mesmo um bacataré³ – disse de si para si, minutos mais tarde, enquanto retomava a caminhada.

À cada passo dado, ritmado pelos ecos da mata, culpava-se pelo engano. Shijo sentia-se amargo pela vida que abarcava. Duas ou três vezes, resolvera desertar daquele mundo, entornando o líquido ardente da bebida de arroz. Teria de ser mais resoluto nas decisões…Mas não tinha coragem para tanto.

“Beber saquê não vai me fazer livrar dos problemas, mas vai me trazer confusões mentais como esta!”

A luz produzida pelo chouchin corria pelo manto negro e pedregoso, recortando em feixes dourados os contornos de pequenos animais que avançavam em sua ronda noturna. Shijo podia escutar o coração daquelas nobres criaturas, e, talvez porque a lanterna desbravasse a escuridão, sentia-se também parte da floresta.

À cada vala, ou pedra que sobrepujava, menor o medo se tornava em Aokigahara.

Foi, então, que a luz banhou o braço ferido, e qual foi a sua surpresa em percebê-lo pálido e enrugado. Assustado, agitou o membro com avidez, e a manga do quimono deslizou rapidamente sobre o punho. Fez o mesmo com o outro braço e notou-o também pálido e sem viço. Assombrado, levantou a bainha do quimono e foi tomado pelo par de pernas retorcidas, velhas e lânguidas.

Estacou. Tocou a própria face, e sentiu os sulcos das rugas correrem toda a extensão que ia da testa ao queixo. Sentia-se velho e ressequido.

– Mas que diabos?

Não. Aquilo haveria de ser uma alucinação.

Bastava correr para deixar aquele bosque sombrio, ter com o fim de Aokigahara, e tudo estaria resolvido. E foi o que fez, resfolegando, derramando a baça luz da lanterna sobre as silhuetas fantasmagóricas das árvores, como se estivesse diante de um assustador teatro de sombras.

Embora as pernas lhe parecessem frágeis como galhos quebradiços, o vigor dos movimentos o impulsionavam para frente como se uma mão invisível o impelisse com energia.

A luz alimentava o corpo de Shijo, como o sol aquece os corvos, pela manhã.

Quando notou, a floresta desvanecia sob as lanternas da aldeia, e em menos de um quarto de hora, era possível vislumbrar a lua no firmamento a banhar o cume do Fujiyama.

Assim que subiu o lanço de escadas que levava à sua casa, percebeu que não carregava mais a lanterna. Teria deixado cair? Voltou-se para a alameda, e não a encontrou.

Era certo que o hálito de saquê fosse ainda a razão de mais um devaneio, tanto que baforou sobre a palma afim de retê-lo, avaliando o odor, e temendo, através dele, revelar à avó o que andara fazendo à tarde. Era bom que não existissem rugas em suas mãos. Deveria estar são novamente.

Correu a porta, e encontrou a velha senhora ajoelhada diante do oratório. Retirou os tamancos de madeira, penteou os cabelos negros em desalinho, e ajoelhou-se ao lado dela.

– Atravessou Aokigahara? – Indagou ela, sem se virar.

– Sim, senhora…

– Hum. Não deveria passar por lá à noite…

– Sim.

– Se passou, agradeça por não ter ocorrido nada pior.

– Sim. É o que pretendo fazer.

A mulher curvou-se. Virou-se para o neto, os olhos turvos e esbranquiçados sustentaram-lhe por alguns instantes.

– Muitos que vão à Aokigahara procuram o que não devem – replicou ela. – A morte por exemplo. Quantas cordas em laço encontramos pendendo dos galhos das figueiras? Três? Quatro? Uma dezena delas?

Shijo abaixou a cabeça, em obediência ao discurso.

– Floresta dos suicidas, é o que dizem, batchan.

A mulher suspirou.

– Teve sorte de terem lhe dado a lanterna – disse, fitando a manga do quimono chamuscada.

– Como sabe?

– É claro como a luz do sol. Há quem diga que as pessoas têm uma segunda chance. Quando jovens, um pouco mais.

Shijo achou que deveria se defender:

– Acha que fui à floresta para… Não. Simplesmente passei por lá…

– A lanterna afasta más ideias – atalhou a velha. – Enganam os espíritos.

– O que quer dizer?

– Que esteve sob a proteção da pequena Haru.

Shijo lembrava-se da história da pequena Haru, e da canção de ninar que embalava a boneca de pano. Saita, saita churippu no hana ga… Mas não recordava-se, que usasse um chouchin para se guiar pela floresta.

A velha continuou:

– Haru morreu na floresta, há muito, porque procurava a saída com um chouchin.

Shijo fitou a manga chamuscada, e sentiu os pelos do braço eriçarem abruptamente.

– Acha que foi ela quem me ajudou a sair de lá? – Indagou.

– Sim. Haru engana os espíritos da floresta, Shijo kun. Não interessa à Aokigahara um velho suicida e sem esperanças…

1. Tradução: Elas floresceram, elas floresceram, as flores de tulipa/Elas estão enfileiradas, elas estão enfilieradas, vermelha, branca e amarela/Qualquer flor que você olhe, é linda.
2. Lanterna japonesa, feita de papel de arroz.
3. Do japonês “tolo”, “bobo”. 
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8 pensamentos sobre “Conto: A LANTERNA

  1. Eu estou sem palavras que possam servir de adjetivos para a beleza desse conto. Não só pela elegância das frases, ou pela cadência da pequena história..Pela demonstração cultural e também pelas entrelinhas da lição que fica.

    Sua escrita é ímpar e talvez, dos novos autores nacionais que conheci, você seja um dos mais talentosos.

    Continue com a lanterna acesa.
    Bjs,
    Annie

  2. Nanuka, o seu conto ficou ótimo! Que isso, “ótimo”? Assim limita muito a qualidade do seu trabalho. Fico com a descrição da Annie aí em cima, “estou sem palavras” xD
    A atmosfera que você criou, essa densidade misteriosa, você conseguiu mantê-la todo o tempo, ainda que o começo mostrasse mais terror. O conto tem um quê místico muito particular do autor. O tipo de conto que, quando a gente lê, gostaria de ler um livro inteiro a respeito ^^

    Parabéns, Nanuka! Ficou “sem palavras” rsrs
    !

  3. Nanuka,

    Você demonstra pleno domínio narrativo, além de se utilizar com delicadeza de elementos culturais que remetem à sua ancestralidade.

    Como disse Pedro Almada, você sabe criar uma densa atmosfera de terror, levando o leitor a uma cumplicidade crescente com o narrador.

    Parabéns!

  4. WOW!
    Encontro-me ainda extasiado com tamanha grandeza e simplicidade deste conto.
    Tenho de te parabenizar por mais uma vez me deixar sem palavras, sim, pois nada do que eu venha a dizer chegará perto do que senti ao ler este conto, que é de todo incrível. Gostei muito de como você mesclou o japonês na narrativa, sem fazer com que o mesmo ficasse confuso. Pelo contrário, este aspecto enriqueceu ainda mais um conto que já é rico por si só. Mistério, terror e tensão na medida certa. Parabéns!
    E, de verdade, obrigado pelas palavras, meu caro Nanuka.
    Te desejo muito sucesso, e que siga sempre sendo este cara bacana que és.

    Com isso me despeço.
    E como há braços, abraços.

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