A arte de escrever

 

A-arte-de-escreverOlá, pessoal.

Gosto muito de um livro entitulado “A arte de escrever”, do alemão Artur Schopenhauer, e, hoje, enquanto limpava as estantes para o final do ano, encontrei  esta coletânea de ensaios (L&M Pocket), cujo conteúdo, ainda que dispense apresentações,  faz juz ao que sugere o título.

Uma das passagens que mais gosto é a que diz:

“Quem escreve de maneira displicente confessa com isso, antes de tudo,  que ele mesmo não atribui grande valor a seus pensamentos. Pois apenas a partir da convicção da verdade e importância de nossos pensamentos  surge o entusiasmo que é exigido para buscar sempre, com incansável perseverança, a expressão mais clara, mais bela e mais vigorosa – da mesma maneira que recipientes de prata  e ouro são apenas usados para coisas sagradas ou obras de arte inestimáveis.”´

Escrever um livro, no meu modo de ver, implica em honrar a deferência de quem se propôs a prestigiar o seu texto. Aqui ressalto mais uma vez Schopenhauer ao descrever o cuidado com a escrita: “assim como o desleixo na maneira de se vestir revela o menosprezo pela sociedade na qual uma pessoa se apresenta, um estilo descuidado, negligente e ruim demonstra um menosprezo ofensivo pelo leitor”.

Por outro lado, escrever não é fácil, e ser cuidadoso com o que se escreve é, por vezes, um desafio. A começar pela dificuldade atribuída ao processo de criação. Mente  aquele que tem no processo da escrita a mesma agilidade do pensamento. Aqui, me permito parafrasear Julien Green, ao enfatizar que “O pensamento voa e as palavras vão a pé”, pois de outro modo, como explicar a dificuldade de se transcrever no papel os pensamentos em seu frescor e genuidade? Há quem se utilize da tecnologia, gravando a própria voz, como expressão máxima e simultânea do pensamento. Mas manter a ideia mater e desenvolvê-la de modo  a se fazer compreensível é sobretudo o desafio do escritor. Além, é claro, de “dar” beleza e inteligência às palavras.

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4 pensamentos sobre “A arte de escrever

  1. Muito bom o seu post, Nanuka! Principalmente com relação a “Mente aquele que tem no processo da escrita a mesma agilidade do pensamento”. Considero duas vezes mais difícil lapidar palavras, transmitindo uma sensação por meio da narração e envolver o leitor em uma cena, do que criar uma arte ou compor uma melodia. Os sentidos visual e auditivo são bem mais rápidos e fáceis de se atingir, ao contrário da narrativa, que pressupõe uma cumplicidade gradual com o leitor.

    Por isso mesmo, é fascinante e desafiador o mundo das palavras! Você, que transita nessas duas frentes criativas – arte e literatura- , sabe bem o que é isso, né?

    • Obrigado, Kyanja! Concordo plenamente com o que diz sobre a diferença entre estas expressões artísticas! O desenho flui praticamente em harmonia com a pretensão do artista. Escrever é como esculpir uma pedra dura e inexpressiva. Seria tão melhor se escrever fosse como desenhar! =D

  2. Fantástico. Procurarei esse livro.

    “Mente aquele que tem no processo da escrita a mesma agilidade do pensamento”

    Engraçado que hoje pela manhã enquanto dirigia, perdia-me em pensamentos sobre o que postar nos blogs e se uma postagem à respeito de meu diário de voz seria de alguma relevância. Primeiro questionei o motivo dele existir. Claro que é mais fácil puxar o celular e fazer um arquivo de voz enquanto dirijo que sacar um caderninho ou mesmo o celular para escrever uma ideia. E foi que me ocorreu a facilidade com que deixo fluir os pensamentos em voz. É como se tão somente eu abrisse a boca e tudo escorresse para fora da mesma maneira pensada. Não meço palavras, não mudo termos. É a mais pura forma externalizada de meus pensamentos. Já quando os escrevo… bem, a história é outra. Eu decido o que escrever e não escrever. Eu descarto o que não gosto. E eu estou fazendo referência à diários, algo que supostamente ninguém irá ler/ouvir.
    Então, enquanto a pedra bruta de minha criação é entendida em sua totalidade quando exposta via voz, a lapidação permitiria que somente as partes importantes seriam compreendidas… e melhor compreendidas.

  3. Adorei o post, adorei a sugestão e ameeei a frase “O pensamento voa e as palavras vão a pé”!!! Apesar de eu ser apenas blogueira, sinto bastante isso que a frase conseguiu expressar com perfeição, quando vou escrever uma resenha de livro! Você já tem no seu coração a opinião sobre o livro, mas os pensamentos são caóticos e colocar uma ordem em tudo isso, só mesmo a firmeza das palavras!

    beijos!!

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