Cachorrinhos abandonados

Hoje, caminhando pelas redondezas de uma pedreira desativada encontrei uma caixa de papelão com oito filhotes de cachorro. Além de mim, outros tantos formaram rapidamente um grupo perplexo e solidário. A cena de abandono chocou a todos, sobretudo porque fazia um frio de doze graus.

Os bichinhos estavam encolhidos, uns sobre os outros, e mal conseguiam se mexer.

Só depois de algum tempo entramos num súbito e afobado consenso: levar a caixa para a casa de uma senhora, que mora nas mediações da pedreira, conhecida por abrigar cachorros de rua.

Considerando que  todos ali não tinham condições de abrigar tantos filhotes, e porque a instituição encarregada de recolher animais não atendia ao telefone, foi o melhor que decidimos.

– E mesmo que ela não aceite, o que é ponderável, é um primeiro passo – foi o que um senhor concluiu.

A mulher levou um susto. E, como era de se imaginar, reclamou um bocado. A verdade é que, com tantos cachorros pela casa (alguns seriamente doentes), era compreensível que achasse que estívessemos abusando de sua boa vontade. Mas quando retirei da caixa, o menor dos cãozinhos, uma cadelinha preta com patinhas brancas, que parecia gemer de fome, a mulher amoleceu. Quer dizer, antes dela, eu já estava mais mole que dente de leite, tamanha a afeição que tive pelo bichinho. Era simplesmente lindo. Um ursinho que arfava, e abanava o rabo.

– Se não morasse em apartamento – comecei a dizer, mas me calei (sempre tivemos cachorro, mas a decisão não cabia apenas a mim).

A verdade foi que  o factóide gerou a comoção esperada, e a mulher, que já se resignava de ser a salvadora dos pobrezinhos, resolveu telefonar para um vereador que ajudava em instituições como aquela à qual havíamos telefonado. Ligação feita, o homem se ofereceu em resgatar os animais para adoção, e todos ficamos muito felizes.

Depois de desligar o telefone, a boa mulher trouxe um cercado de metal, com tela, para colocarmos os animalzinhos no muro do lado de fora, já que temia que se contaminassem com a doença dos outros. Fiquei ali afagando a menor das cadelinhas. Ela me deu uma rápida lamida no nariz , e pôs-se a comer.

Embora quisesse ver o desfecho da história, resolvi voltar para casa. Já eram quase dez da manhã, e tinha alguns desenhos para preparar.  Mas antes deixei meu número de telefone para eventuais imprevistos.

No trajeto para o meu prédio, perto da alameda ladeada por chorões, avistei uma mulher, uma criança e uma senhora. Por alguma razão, achei que devia contar o que havia acontecido.

Ao ouvir a história, a mulher sorriu:

– Conheço ela, é muito bondosa. Juro que por mim pegava um, mas também recolho cães na rua, sabe? E já gasto muito com issoGanho mil reais por mês, e setecentos vai para o aluguel, sem falar que minha mãe – e ela apontou para a velhinha ao lado, – gasta uma fortuna em fraldas.

(Nem preciso dizer que a senhora revirou os olhos, constrangida)

A menina, porém, resoluta, foi quem pôs fim à lamúria:

– Ah, mas sempre tem espaço para mais um!

Sorri, e me despedi. Disse que estava com pressa, e me precipitei para a entrada do meu condomínio, refletindo sobre o ocorrido.

Em meia hora meu telefone tocou:

– Alô? É o rapaz que esteve aqui hoje cedo?

Respondi que sim (era a mulher dos cães).

– O vereador veio buscar os cachorrinhos! – Comunicou ela. – Mas fui seca para mostrar aquela pequena que você havia adorado, e qual foi minha surpresa em dar com a falta dela! Então, você se decidiu…?

– Ahn… não! Eu avisaria. Nossa, ela sumiu?

De repente veio à cabeça a menininha na rua. E contei toda a história. A mulher riu:

– Ah, eu conheço. Coitada é que nem eu. Mesmo gastando em fraldas com a mãe, e não tendo um tostão furado, ainda assim, tem tempo para bichinhos como este.

Respirei aliviado.

– Vou ver se foi ela mesmo quem pegou a pequena. Obrigada. Até!

Desliguei o telefone, e pensei na lambidinha no nariz.

Pelo menos sabia que a pequena cadelinha tinha conseguido um lar.

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Um pensamento sobre “Cachorrinhos abandonados

  1. Nossa, Nanuka!
    Que história mais linda, bela e comovente crônica. Aqui Você nos mostra o quanto as pessoas são sensíveis e montam uma corrente solidária. Mostra o quanto de sensibilidade existe nos traços de um desenhista, que consegue capturar na ponta dos dedos toda a aura da vida!
    Parabéns pela cativante narrativa!

    PS.: Vou colocar o link no meu face…

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