Conto: O casamento de Ochibelli

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A história que aqui se conta ocorreu há um bocado de tempo e nos diz como uma menina simples, de nariz pequeno, casou-se com um sujeito de nariz ainda menor.  Naquele tempo, como se sabe, narizes grandes e pontudos (ou caídos, se preferirem) diziam muito sobre a nobreza, e era esta a preocupação que afligia a família de Ochibelli . Em especial, todas as noites, enquanto discutiam o assunto no jantar.

– É mesmo uma pena que o nariz de nossa filha não tenha crescido o suficiente – murmurava a mãe de Ochibelli, uma senhora corpulenta, de nariz delicado, enquanto servia os pratos. – Os Magno tiveram uma filho narigudo. Que isso jamais chegue aos seus ouvidos, mas invejo a sorte deles. Tenho esperança que o nariz de Ochiebelli cresça até o Natal.

O discurso era proferido sempre da mesma forma de modo que o pai de Ochibelli, um sujeito muito magro e de nariz igualmente pequeno e delicado, fizesse também o seu discurso em resposta:

– Pois acho que nossa filha deve se casar com aquele que for merecedor de seu coração. É realmente um despautério que todos meçam a importância de um indíviduo pelo nariz.  Por que não pelo tamanho da cabeça? Ouvi dizer que quanto maior a testa, mais inteligente é o sujeito.

-Ora, e cabeça serve para o quê, marido? Para aumentar o tamanho dos chapéus? Veja bem, somos o reino que mais produz rapé em todo o mundo. Acredita que uma cabeça maior faria diferença?

– Rapé! Rapé! – Bufava o pai, enquanto Ochibelli, atenta ao que diziam, baixinho, dizia a mesma coisa, já que sabia de todo o discurso de cor e salteado. – Uma maldição é o que é!

Quando o jantar terminava, e Ochibelli se recolhia para dormir, os pais ainda continuavam a discussão, até que os brados fossem substituídos por roncos. A menina, apesar de possuir um nariz que era do tamanho de uma cereja, era muito bonita, e todas as noites ficava debruçada no peitoril do terraço de seu quarto, a fitar as altas torres do castelo do Rei Belnaso. “Saber que somos escravos de caixinhas de rapé” pensava ela, enquanto escovava os cabelos negros, que caíam sobre o busto,“só me faz sonhar em viver em um lugar onde narizes não sejam importantes como são por aqui”.

Foi pensar nisso que ouviu um ruído de rodas farfalhando as folhas secas da alameda que levava à sua casa. A noite ia clara, com uma imensa lua amarela, e Ochibelli pôde perceber claramente, perto de uma figueira, um rapazote que carregava um carrinho de mão, arfando enquanto se recompunha da subida que o trouxera até ali. Curiosa por ver aquele menino naquele estado, Ochibelli, acenou, sem antes conferir se os pais dormiam realmente.

– Olá! O que faz aqui?

– Sou mascate – respondeu o menino, e quando virou-se de volta para o carrinho, perfilando-se diante de Ochibelli, a menina percebeu o lindo e comprido nariz que o rapaz possuía. Uma visão que lhe provocou tamanha curiosidade, já que um rapaz com nariz tão formoso não deveria estar levando uma vida de miséria como aquela, que ela perguntou rapidamente: – não acha que deveria estar ajudando os outros a separar as ervas para o rapé?

– Ah, tenho alergia às sementes de cumaru-de-cheiro, senhorita – respondeu ele, – ou não sabe que estão usando isso mais que cravo-da-índia para dar sustância ao tabaco?

Ochibelli achou tão linda a voz do menino, que ficou calada, embora o que ele lhe dissera fosse realmente um atrativo a continuar a prosa, por isso trepou no peitoril, equilibrou-se nas fendas da alvenaria da casa, e desceu até lá, num instante. A casinha, que era um sobrado, criava uma bela sombra ocultando os dois na alameda.

– Então, o que faz para viver? – Perguntou ela, observando o menino com mais atenção.

– Vendo narizes postiços – respondeu ele, friamente.

Ochibelli não se deu conta do que o menino lhe dissera. Parte porque perscrutava o visitante, mais do que ele trazia no carrinho.

O menino era esbelto, tinha ombros largos, e parecia estar na travessia entre a meninice e a “adultice”, já que as mãos eram grandes e pesadas, sem atender aos comandos como deveriam.

– Bom, como vê, errei o caminho, agora se me permite – murmurou ele, enquanto dava meia volta.

De repente, talvez porque as mãos estivessem atrapalhadas, o menino tombou o carrinho na manobra, e despejou todo o estranho conteúdo sobre as folhas. Ochibelli despertou para o que o rapaz lhe dissera. Assustada, deu um pulo para trás, saindo do manto sombrio que era a própria sombra da casinha ao luar.

– Pelo Rei Belnaso! Que coisa horrível é esta?

O rapazote levou um susto ainda maior. Não porque a menina sobressaltara sem aviso, mas porque finalmente pudera ver o lindo rosto que Ochibelli possuía. Ao luar, Ochibelli tratou de rapidamente esconder o pequeno nariz sob as mãos delicadas, enquanto dizia um tanto admirada (e também porque achou que não deveria ofender o menino):

– Bem, não são tão horríveis assim.  Acho que meus pais vão gostar de saber que existem coisas assim, hoje em dia.

(continua).

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