O Ladrão de Destinos



“- Você é sonâmbula? – Indagou Lao Pengyou. –  E se eu lhe dissesse que, em alguns casos, o sonambulismo é resultado de um intercâmbio espiritual?”

Mayumi Chen é filha única de um casamento que uniu duas culturas do extremo oriente. O pai é chinês e a mãe, japonesa. A rotina de Mayumi parece absorver um pouco destes dois mundos. Todos os dias, a menina acorda muito cedo para uma sessão de Lian Gong, vai à escola japonesa de matemática aplicada, almoça rapidamente numa  pastelaria da vizinhança, e trabalha à tarde na loja de antiquários do velho Lao Pengyou. Como se não bastasse, tem de dividir o quarto (e a beliche) com duas tias solteironas.

Apesar do aperto, Mayumi, passa boa parte do tempo no velho porão da casa, onde pode fazer os trabalhos escolares sem ser incomodada, além de tirar rápidas sonecas, que ultimamente são um bálsamo no corre-corre de Mayumi.

Embora trancada a alguns metros no subsolo, a menina corre certo perigo: durante o sono, é capaz de andar, falar e até sair de casa. E , segundo o  velho Pengyou, isso ocorre porque Mayumi é uma menina de espírito livre (o que a deixa menos chateada  por simplesmente não ser chamada de “sonâmbula”).

Seja como for, durante o sonambulismo, Mayumi tem a impressão de sair do próprio corpo e viajar para uma infinidade de lugares estranhos, como se estivesse sonhando.  À princípio a impressão lhe parece improvável, mas a cada dia, percebe ser dona de um dom incomum, capaz de fazê-la realmente viajar. E são muitos os lugares aos quais Mayumi consegue se deslocar. Lugares parecidos com os que conhecemos por aqui, como vilas, bairros ou cidades inteiras. Estranho? Bem, não para Mayumi. As viagens se tornam até comuns, e alguns destes lugares já são até  bem familiares.

É num destes “passeios”, que a menina conhece Pedro, um menino que, assim como  ela, consegue se desdobrar durante o sono.

Pedro, ao contrário de Mayumi, não dorme porque quer, mas porque tem um distúrbio, que o deixa sonolento o dia todo. Está sempre ali à espera da menina.

Os dois sempre se encontram num vilarejo sombrio, conhecido pelos moradores de lá, como A Orla. Uma pequena comunidade rural, onde sempre é noite. Na Orla, os meninos provam de uma experiência ainda mais inusitada: ao conhecerem outros meninos na mesma situação, descobrem que podem voltar para o mundo real, trocando de corpos com eles. É como se fosse possível ver e sentir com os olhos e o corpo de outra pessoa, enquanto ela está pela casa, perambulando, enquanto dorme.

Como?

Bem,  como os espíritos de Mayumi e Pedro estão libertos , mesmo que temporariamente,  existe a possibilidade de visitarem outros corpos que estão dormindo também, embora isso dure o instante de alguns minutos, até que todos acordem. Talvez isso explique por que alguns sonâmbulos saem por aí, resmungando, ou assaltando a geladeira, e acordem sem saber por que estão fora da cama. Mayumi, às vezes  incorpora uma loira que mora em Indiana, e Pedro um adulto, que é um grande jogador de cartas em  Mumbai.  Mas isso , tem uma razão para acontecer, e pode gerar problemas, além de despertar interesse de gente muito mal intencionada.

Seja como for, na Orla, os meninos pouco pensam nisso, já que, de uma forma ou de outra, acabam achando tudo aquilo uma grande diversão. Afinal, não estão sozinhos, há  uma infinidade de pessoas que estão ali nas mesmas condições, como o boticário Morcaridos, um sujeito boa pinta, que trabalha na perfumaria do vilarejo. Bem, Mayumi não acredita que espíritos possam ter uma profissão, mas Pengyou garante que pessoas materialistas assim são capazes de terem um bom estabelecimento nestes lugares!

Apesar da aparente simpatia de Morcaridos, poucos sabem que o estabelecimento é apenas a fachada de um negócio escuso, logo porque o falso boticário trabalha como um ladrão de destinos. Uma profissão muito comum no mundo espiritual. Ladrões como ele, roubam futuros promissores de recém-nascidos para vender para grandes latifundiários ou políticos na vida real, que sonham com uma vida brilhante para os seus filhos. Mas como todo pilantra que se preze, aproveita dos intercambistas para agir por ele, e só assim roubar destes bebês o perfume da vida.

Ainda é um esboço de uma ideia que me ocorreu esta manhã. Talvez nem vá para frente, mas estou anotando, porque, talvez, a história ganhe nova forma e fique mais interessante. Por enquanto são recortes de outras tantas histórias que existem.

🙂

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4 pensamentos sobre “O Ladrão de Destinos

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