Os sapos da arte moderna

Em 1922, ou mais precisamente no dia 13 de fevereiro, começaria uma semana, que ficaria para sempre registrada nos anais da história brasileira. Não uma  semana qualquer. Falo da Semana de Arte Moderna, ou Semana de 22, que levaria no lombo o marco do modernismo no Brasil.

“Avancemos” até à década de 20, a década que “jamais terminou”, os ditos “Anos loucos”, e nos apressemos para o evento.

Na segunda-feira do dia 13, o saguão do Teatro Municipal de São Paulo estava lotado. Nele, esparramados ao longo do espaço, telas de Anita Malfati e Di Cavalcanti  arrancavam interjeições de espanto.

– Que despautério!

– Meu filho de cinco anos, provavelmente faria melhor. E, tenho dito, senhores, esta porcaria terá seus dias contados!

Estas e outras afirmações fervilhavam no salão, e indicavam o começo de uma rejeição natural. O fato é que ninguém estava preparado para enfrentar o novo… Nem mesmo os artistas! Sobretudo porque  os mesmos não se sentiam seguros em relação à arte que estavam começando a construir. Mas uma coisa era certa: estavam  determinados  a acabar com o “velho”.

Estudei com a neta de Oswald de Andrade, e ela me dizia que era comum seu avô dizer que ninguém de fato sabia o que queria, mas sabia o que não queria. Seja como for, mesmo sendo provocada por jovens julgados inexperientes, o mérito deste movimento foi a disposição de limpar o passado e preparar o terreno para o futuro (coisa que só os jovens são capazes de fazer).

As pinturas de Anita eram um caso à parte. Coincidentemente ou não, ela viria a participar da exposição com 22 obras e  “O homem amarelo” teve até oferta de compra.

Foi a noitada das surpresas. O povo estava muito inquieto, mas não houve vaias. O teatro completamente cheio. Os ânimos estavam fermentando; o ambiente eletrizante, pois não sabiam como nos enfrentar! – Dizia ela. – Era o prenúncio da tempestade que arrebentaria na segunda noitada!

E a segunda noitada foi mesmo calorosa. Afinal, o poema de Manuel Bandeira, declamado por Ronald de Carvalho, recebeu do público uma saraivada de vaias.  Bandeira era tubérculo, e não compareceu naquela noite. Mas o poema que criticava o parnasianismo, foi assim declamado por Ronald:

– Enfunando os papos,
Saem da penumbra,
Aos pulos, os sapos.
A luz os deslumbra.

Tendo de engolir sapos ou não, apartir deste acontecimento, tudo se tornou novo. A poesia antes lida, agora seria  declamada, as pinceladas antes comportadas, agora seriam livres de quaisquer grilhões, e a literatura (bem, a literatura, esta não haveria de estar de fora), buscaria finalmente a sua identidade brasileira.

E por falar em literatura, Monteiro Lobato não pareceu gostar nada nada desta revolução, ele que já era modernista e não sabia… Bem, mas esta é uma outra história!

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